PRIMEIRO SEGREDO

Conversa entre mãe e filha

O celular tocou. Whatsapp, a filha perguntando: “posso te ligar?”

O bip, a mãe atende a ligação internacional. Do outro lado da linha, uma fungada profunda e o barulho de um choro nem um pouco contido.

-Mãe, o que eu vim fazer neste fim de mundo? Queria você aqui! Se eu te comprar passagem você vem?

A mãe tem um sorriso secreto do outro lado da linha. Finalmente a filha descobria o que era sentir uma falta doída, igualzinho ela havia sentido!

-mas filha, não era teu sonho morar em Portugal, conhecer o mundo? Calma. Você está de TPM?

-de TPM, cansada, com uma cesta de roupa suja e mais de 12 horas trabalhando em pé... não quero fazer nem um omelete, mas tenho que comer... mãe... por que é que a gente cresce e quer ir embora de casa?

- caramba, filha, eu lá sei! Que pergunta! Se fosse por mim, filho não crescia, você sabe, né?

- então, mãe, vem pra cá então. Eu te pago a passagem!

- Ah, tá. E eu faço o que? Rifo teu pai? Dou ele pras irmãs de caridade ou pra solteirona do apartamento de cima, que fica de olho no velhinho?

As duas caem na gargalhada, cada uma de um lado do oceano.

-ai, mãe, só você mesmo! Eu tinha certeza que você queria vir passar um tempo aqui, antes você é que ficava chorando quando eu ligava... Você não gosta mais de mim, mãe?!?

-arre, deixa de ser dramática, Giovana! Como eu vou deixar de gostar de você, mina filha? Nunca! Mas é que mudei minha rotina aqui, comecei a ler uns livros que uma amiga – a Cida, lembra? – me indicou, que ajudaram ela quando o filho casou. E estou fazendo uns exercícios também...

- Nossa, dona Dirce, quem diria, hein? Quer dizer que tá trocando sua filha por livro e exercício?

- não, filha...na verdade estou aprendendo contigo...

- como assim? Agora você me deixou curiosa!

- pensa bem: cuidei de você durante quase vinte anos, não foi? Aí você foi embora, e a mãe aqui ficou parecendo uma “maria das dores”: doía cabeça, joelho, pescoço, estômago, lembra? Parecia que eu estava fazendo via sacra em médico. Teve até o Dr. Euclides, que me mandou tomar antidepressivo, afe...

- verdade, né, mãe? Eu até perguntei pro pai se não era melhor eu voltar...

- sim. Teu pai também estava arrastando as chinelas dele. A gente ‘tava parecendo cachorro que caiu da mudança". Aí a Cida encontrou a gente no mercado, e comentou que ela e o marido também tinham ficado assim quando o filho casou, e disse que isso tinha nome. Era a tal da Síndrome do Ninho Vazio.

-ah! Isso então! Será que eu tô sentindo isso ao contrário, mãe?

- acho que a tua é síndrome do saco cheio, filha...

Desataram a rir de novo. A filha recomeçou:

- ´tá, agora chega de palhaçada, e aí o que aconteceu depois que você e o velho conversaram com a Cida?

- ela contou como ela e o marido fizeram para mudar isso. Eu e teu pai conversamos depois. Eu comecei a fazer algumas mudanças, sabe?

- conta aí, dona Dirce! Que mudanças?

- ah, eu e teu pai começamos a sair mais...

- aha!

- é, e eu estou fazendo uns exercícios mentais, todo dia. Olha, estou aprendendo a gostar de mim de novo. Fazendo coisas para mim...

- mas como é isso, mãe?

- ah, filha, se eu for te contar tudo, vamos ficar umas três horas no telefone.  Só posso te dizer o seguinte: desde que comecei a fazer tudo isso, parei com a peregrinação pra médico, e não tenho mais dor de nada. Por isso agora eu não quero viajar, porque está sendo muito bacana me redescobrir...

- sabe de uma coisa, mãe? Eu tenho o maior orgulho de ser sua filha, sabia? Quando eu tiver meus filhos grandes, quero fazer como você, e tirar a situação “de letra”!

- imagina... você está melhor?

- eu já estou melhor, sim. Obrigada por me aguentar, viu? Vou fazer meu omelete, tomar banho e ir dormir, que amanhã começo cedo no trampo. Manhê, te amo muito!

-eu também, querida. Bom descanso.

A mãe desligou, com um sorriso no rosto. Síndrome do que mesmo?





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