PRIMEIRO SEGREDO

Cortando os cabelos

Ontem, num gesto decidido, liguei para meu cabeleireiro e perguntei se ele cortaria meu cabelo. Não as pontas somente. Cortar, tosar, entende? Como bom cabeleireiro, ele adorou a ideia. Para mim, como para outras mulheres, cabelo tem a ver com tudo o que se faz na vida. Inclusive mudanças.

Cortes e mudanças, uma história

Vou contar uma história que se passou no Japão, há vinte e tantos anos atrás, e que só conhece quem conversa pessoalmente comigo. Eu estava casada há dois anos com meu marido, e ele tinha uma história de vida peculiar, que convém explicar aqui.

Filho de japoneses, o pai dele era ‘kaityo-san’ (padre, pastor, deem o nome que quiserem), de uma religião japonesa;  sempre o filho mais velho torna-se sucessor do pai nesta função. A "louca desvairada"  que aqui escreve casou-se assim mesmo, pois paixão é algo sério, e uma voz interna dizendo que “aquele era o homem com quem eu tinha combinado passar a vida” era mais sério ainda. 

O casamento e a viagem

Casei-me em 3 meses, num dezembro, e em março embarcava para o Japão, sem falar uma palavra da língua, com o intuito de estar com o cara que eu amava, aprender a língua, os costumes e os dogmas religiosos que eu teria que professar dali para frente. 

A família dele não me aceitou por eu ser Gaijin (estrangeira), como se os "gaijins" não fossem eles, morando no Brasil e mantendo seus costumes intocados, sem respeitar os nossos. Mas naquela época eu não via isto, e tentava me adaptar, agradar, mudar minha natureza.

O preconceito

Sofri preconceitos e ouvi comentários maledicentes de todas as formas, da comunidade ‘religiosa’ (que não sabia o que religião significa, né?), da família… enfim, minha vida não estava fácil. Ainda assim, aprendi, no Japão, a falar a língua em 8 meses, além de todos os dogmas, ritualística e costumes, culturais e religiosos.

Naquela época, ainda mais dentro de um meio religioso, eu sempre pensava que tinha que ser humilde… e continuava calada, ouvindo desaforos e suportando atitudes que hoje seriam consideradas abuso de poder. 

Eu morava num alojamento de nossa igreja, e na época tinha um cabelão que ia até o meio das costas. Estava em depressão, mas não sabia. Sei hoje, porque acho que não é comum você todo dia querer se jogar debaixo do trem que passa a 500 metros de sua casa, nem querer pegar a tesoura de papel e cortar seu cabelo de qualquer jeito. Eu não conseguia falar sobre o que eu sentia, eu não conseguia reagir aos abusos de poder.

A mudança radical

Então, uma manhã, eu me vi sozinha no meu quarto, empunhando a tesoura para cortar meu cabelão. Pensei bem: “eu não vou estragar minha cara por conta dessa gente idiota. Façamos bem feito.” E me dirigi até o cabeleireiro que cuidava do meu cabelo havia dois anos. O homem não queria cortar curto, como eu pedi. Eu ameacei, disse que se ele não cortasse, eu o faria. O homem cortava aqueles nacos de cabelo balançando a cabeça de um lado para o outro, chateado.

Cheguei no alojamento com um corte ‘joãozinho’, em pleno inverno. As primeiras pessoas que me viram foram aquelas que me "enchiam o saco" diariamente. Se assustaram, e uma delas me falou:

-“ai, meu deus, o que você fez com seu cabelo liiindo?????”

-eu cortei o meu cabelo lindo. Agora imagine o que eu vou fazer com quem me tirar do sério novamente…

Ajustando contas

Para encurtar a história, resolvi minhas contas com as pessoas que faziam da minha vida um inferno nos próximos dois dias, e dali a uma semana eu estava me mudando de alojamento, para outro local aonde eu era respeitada. A história continua, mas a parte que interessava contar é essa.

Cortar os cabelos, hoje

Então, ontem eu cortei meu cabelo. E me lembrei do que eu fiz lá atrás. Não estou em depressão, mas estou precisando, novamente, dar um NÃO bem grande para muitos fatos e pessoas na minha vida. Eu deixei meu cabelo crescer nos últimos três anos, talvez buscando aquela garota leve e cheia de sonhos e de cabelão no meio das costas. 

Durante estes três anos, gostei de ver o cabelo crescer, me achar bonita, feminina, junto com o crescimento do número de posts no meu blog, e de livros com minha participação, entre tantas outras coisas que cresceram - junto com o cabelo - na esfera familiar e profissional.

Mas ontem percebi que precisava me desapegar desta ilusão do cabelo comprido. Precisava cortar muitas coisas na minha vida, e comecei pelo cabelo. Porque eu sei que serei feminina, competente e capaz mesmo se estiver careca. Porque sei que hoje eu gosto de mim e do que eu faço, e não preciso de ninguém a me afirmar que me ama para me sentir amada, ou que me acha bonita para eu me sentir bonita.

Cortei o cabelo, consciente que estou sinalizando uma mudança boa na minha vida. Porque antes, quando eu cortava cabelo, significava que eu estava perdendo o jogo. E hoje, significa que eu estou na vida para me realizar, e faço isto conscientemente

Não estou como um barco à deriva, como já estive. Hoje tenho bússola, tenho leme e tenho rota.


E você, já se deu conta dos motivos que te levam a tomar suas decisões?




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